Prefácio: Volks populi, Volks dei
Bob Sharp
Em paródia ao conhecido ditado, em latim, "vox populi, vox dei", foneticamente
parecido com o trocadilho acima, o Fusca é o carro do povo, carro de Deus.
Pode até ser pretensão ligar Deus a automóvel, mas o fato é que estamos
vivendo um período de motorização tão intenso que até a divindade vem
sendo incorporada aos assuntos automobilísticos. Não faz muito tempo,
religiosos perguntavam, nos Estados Unidos, "Que carro Jesus dirige?"
Era parte de uma campanha contra os veículos utilitários esporte, tidos
como grandes gastadores de combustível.
De outra feita, o experiente e internacional jornalista canadense especializado
em veículos, Jim Kenzie, ao escrever no jornal "The Toronto Star" sobre um
novo modelo americano que, ao contrário dos anteriores, tinha tração traseira
(como a do Fusca), não hesitou em dizer que "A tração é nas rodas que Deus
quis que fossem as motrizes". Nosso inesquecível tricampeão Ayrton Senna
teve momentos em sua fulgurante carreira em que afirmava ver Deus no
habitáculo do seu McLaren-Honda.
Mas, carro do Criador à parte, o fato é que o Fusca nasceu com o nome,
em alemão, de carro do povo, e sua trajetória de 58 anos de produção e
comercialização apenas confirmaria que era mesmo para as massas que ele
havia sido concebido pelo Professor Ferdinand Porsche. Só no Brasil,
foi produzido durante trinta anos e constituiu desde o início objeto
de desejo para milhões.
Quando Alexander Gromow lançou o livro "Eu Amo Fusca" em 31 de março de
2003 - não poderia ter escolhido época melhor, a que coincide com o mês
do cinqüentenário de fundação da Volkswagen do Brasil -, rendeu uma
homenagem mais do justa a esse pequeno grande carro que fez parte da
vida de duas gerações de brasileiros e marcou indelevelmente sua presença
no coração de todos, até de quem nunca teve um.
E que homenagem! Desde a gênese no país de origem, passando pela sua
chegada em terras brasileiras, o livro chega à descrição minuciosa de
sua "morte" em 1986, da "ressurreição" em 1993 por sugestão do presidente
Itamar Franco e da "subida definitiva aos céus" em 1996 - chega a haver
um quê de espiritual nisso tudo. O lado "humano" do Fusca foi muito bem
explorado na série de quatro filmes da Walt Disney Productions iniciada
em 1969, em que o carro era o "Herbie", um personagem simpático que tinha
sentimentos humanos e externava as mais diversas reações.
A ligação homem-máquina existe desde que o mundo é mundo, embora obviamente
tenha começado pelo cavalo. Quando apareceu o automóvel em nossas vidas,
a relação haveria de se transformar, mas continuaria imutável e tão intensa
quanto. Toda marca automóvel tem sua história, sua paixão, sua vida e o que
representou para seus donos e donas, num universo que vai de poucas dezenas
em alguns casos a milhões em vários outros. No caso do Fusca, o que o
carrinho significou para três milhões e duzentos mil brasileiros merecia
ser contado, e certamente foi pensando nisso que Alexander Gromow partiu
para o "Eu Amo Fusca II".
Curiosamente, já na noite de autógrafos de "Eu Amo Fusca" - uma das
mais concorridas já vistas, diga-se -, Alexander percebeu que havia
espaço para o relato de experiências de vida com o Fusca. Foi ali mesmo
que ele decidiu que esse seria o foco do seu segundo livro sobre o popular carro.
Movido pela nova idéia e motivado pela sua imensa paixão pelo Fusca,
o autor pesquisou, colheu informações, garimpou testemunhos e do seu
enorme trabalho surgiu esta obra, uma coletânea de causos que ajudarão
a compreender ainda melhor este carro fantástico e, por que não,
proporcionar momentos de distração e sobretudo enlevo para o leitor.
São todos fatos da vida real, vividos por pessoas de ambos os sexos
e todas as idades e que bem demonstram o que o Fusca foi capaz de
gerar em termos de afetividade. Um verdadeiro animalzinho de estimação.
Parte da família, pode-se arriscar dizer. Um leal companheiro, amigo
para todas as horas, testemunha de inícios de namoro, de casamentos e,
sem querer ser chulo, de leito nupcial. Até sala de parto o Fusca foi,
como na passagem "É menina".
Cada causo supera o anterior e, desta maneira, o leitor vai tomando
consciência do tamanho da presença do Fusca no dia-a-dia de cada
proprietário ou proprietária, suas alegrias, paixões, surpresas,
angústias, tristezas com perdas, como quando era furtado. É um
trabalho de valor inestimável, que seguramente ajudará a manter
vivo nas nossas mentes e das gerações futuras esse carro único,
que se manteve em produção praticamente durante praticamente seis
décadas sem mudanças importantes do primeiro ao último.